INFÂNCIA E JUVENTUDE
Os pais
de Irmã Maria foram Francisco Coronel e Catarina de Arana. Esta, nascida também
em Ágreda, era oriunda de Vizcaya, como recorda a própria Venerável.
Efetivamente, no convento de Ágreda se conserva todavia o documento de fidalguia
dos Arana, de 1540.
O matrimônio de Francisco-Catarina teve onze filhos,
porém, sete morreram em idade recente. Só sobreviveram dois filhos e duas
filhas. Eis aqui os nomes dos quatro: Francisco, José, Maria e Jerônima.
Sobre seus pais, o modo de ser deles, os costumes, etc., a mesma
Venerável deixou um esboço biográfico. Da mãe, diz que era naturalmente mais
oficiosa e ativa que o pai. Ambos extremanente religiosos. A família
Coronel-Arana se relacionava muito com os franciscanos de São Julião; assim se
chamava o antigo convento franciscano que estava situado nos arredores da vila.
A mãe tinha ali seu confessor e procurava diariamente ouvir a Missa na Igreja do
convento. Quase não passava dia sem que os frades franciscanos visitassem a
família.
A Venerável confessa que ela, em sua primeira infância, parecia
um tanto preguiçosa e inútil e para lhe despertar, sua mãe lhe tratava com
dureza. “Verdadeiramente posso dizer que em minha vida lhes
vi (os pais) o rosto sereno, até depois de religiosa”. A explicação que
Irmã Maria nos dá deste comportamento seu na primeira infância, vai muito além
da que os bons pais podiam alcançar. Nos diz, com efeito, que na idade em não
pôde precisar, porém, provavelmente coincidindo com o despontar do uso da razão,
e sem que recebesse informações ou ensinamentos exteriores, recebeu de Deus
informações sobre o mundo, estado pecador do homem, etc, cujos efeitos iriam
perdurar por toda a vida.
Como resultado daquela manifestação concebeu
um temor que jamais lhe abandonou: temor de ofender a Deus e perder a graça. Ao
cessarem as revelações, passiva, caiu como suspensa. Via-se rodeada de perigos,
repleta de misérias, não ousava falar com as criaturas, a todas reputava
superiores. O conhecimento próprio lhe aterrava, costumava ir a lugares ocultos.
Por tudo isso, os pais lhe julgavam insensata e inútil, e lhe davam o áspero
trato mencionado. “Que iremos fazer desta criatura, que não
há de ser para o mundo nem para a religião?”.
A tudo isso se
agregaram diversas enfermidades, que aos treze anos de idade a puseram às portas
da morte: “Se fez o preparo para meu enterro”, disse
ela. Porém, todos os padecimentos os suportava completamente, pela convicção que
tinha de ser filha de uma raça pecadora, obrigada a satisfazer a Deus por seus
pecados. “Maravilhavam-se os médicos de que pudesse levar males tão cruéis, com
forças tão debilitadas e sem queixar-se”.
Quando completou os doze anos
de idade empenhou-se em tratar de ingressar na vida religiosa. A primeira idéia,
foi a de tomar o hábito das Carmelitas Descalças de Tarazona e seus pais já
faziam os preparativos para que isto se consumasse, quando sobreveio uma
circunstância totalmente imprevista, que havia de mudar o rumo de sua vida. A
mãe da Venerável, Catarina de Arana, teve revelação, confirmada por seu
confessor, Fr. Juan de Torrecilla, segundo a qual devia transformar a casa em
convento e ingressar nele como religiosas a própria mãe com suas duas filhas,
enquanto o pai e ingressaria com os dois filhos na Ordem de São Francisco. Na
realidade os dois filhos varões eram já religiosos na dita Ordem. Diante disso,
Maria deu sua conformidade ao novo plano e desistiu de ir a Tarazona. Porém, a
idéia era tão dissonante, que chocou-se com a resistência do pai de família e
também com a de um irmão deste, Medel. A oposição dos circunvizinhos, a
princípio, foi também geral. Diziam que “era agravo do santo matrimônio”.

Assim, transcorreram três anos. Não obstante, pouco a
pouco se venceram as oposições e dificuldades; o pai mudou de parecer e, em
1618, feitas algumas reformas prévias, a casa de Frederico Coronel se
transformou em um convento de monjas. Francisco, a quem seguiu depois seu irmão
Medel, ingressou como franciscano na qualidade de irmão leigo no convento de
Nalda (Sória).
O tempo que transcorreu até que o projeto se transformou
em realidade, Irmã Maria o considerou como uma fase de desregramento. Os
acaloramentos em torno ao projeto, as obras, etc, a distraíram e dissiparam
sobremaneira sua vida espiritual e até cedeu à tentação da vaidade.
O
novo convento havia de ser a Ordem da Imaculada Conceição. Sem dúvida, o fervor
imaculista, que a Espanha conhecia então um de seus melhores momentos, foi causa
desta preferência. Porém entre as Concepcionistas havia dois ramos: uma de
calçadas e outra de descalças. Mãe e filhas se decidiram pelo instituto de
descalças. Mas como na área da província franciscana de Burgos, à que pertencia
a fundação de Ágreda, não havia Concepcionistas descalças, senão só calçadas, se
cometeu a anomalia de trazer de Burgos três monjas Concepcionistas das calçadas
na qualidade de fundadoras de um convento que havia de ser o ramo descalço. Por
esta razão dirá Irmã Maria que a fundação não teve bom princípio, pois as
fundadoras vindas de Burgos tinham que ensinar um modo de vida que elas não
haviam professado nem praticado.
Dezesseis anos tinha Irmã Maria quando
tomou o hábito, juntamente com sua mãe e irmã. Prontamente houve novas vocações.
Nesta primeira época, a abadessa, era das vindas de Burgos na qualidade de
fundadoras.
Uma vez vestido o hábito, Irmã Maria reage contra a
dissipação anterior e se entrega totalmente à vida espiritual. Feita a profissão
em 1620, começa em sua vida um período de enfermidades, tentações e
extraordinários trabalhos, que será seguido por outro de fenômenos espirituais
ressonantes.
AS EXTERIORIDADES
Quando Irmã
Maria tinha dezoito anos, ou seja, no ano seguinte à sua profissão, começam a
ocorrer em sua vida certos fenômenos místicos ressonantes, aos que se deram
indiscreta publicidade, sem ela querer ou saber. Um dos confessores que teve por
este tempo foi o referido Fr. Juan de Torrecilla. Dele diz a venerável que era
mais bom que cauteloso. Irmã Maria padecia com freqüência êxtases, arroubos e
raptos, fenômenos de levitação, gravidade, etc e acudia muita gente a vê-la
neste estado. As monjas – que então governavam a comunidade vindas de Burgos-,
longes de impedir, fomentavam a exibição.
“E chegou minha infelicidade –
escreve Irmã Maria – a que depois de comungar me colocaram o véu e me viram
alguns seculares. E como isto, de arroubous, faz no mundo imprudente tanto
barulho, estendeu-se e passou adiante a publicidade; as superioras que haviam,
eram amicíssimas destas exterioridades e foram se empenhando com uns e outros
seculares; por haver concedido a alguns, não se lhes negavam a outros.

“Deu-me aviso disto um enfermo, aflito, que veio ao
convento me ver, o que para mim foi tão fatigante, minha amargura e dor foram
tais, que fiz voto de não receber a Nosso Senhor sem fechar-me na comungatória.
Pedi um cadeado e me fechei; e o podia fazer porque só comungava pelas muitas
enfermidades que eu tinha. Outras vezes, que me tiravam a chave, bebia xarope ou
medicamentos para que não me obrigassem a receber Nosso Senhor, julgando melhor
carecer deste consolo, que submeter-me a tão grande imprudência, como mostrar-me
a todos os que concorriam que, só de ouvir o barulho deles, me desmaiava;
repreendiam-me asperamente e me imputavam desobediência e, para obedecer, me
rendia”.
Ela mesma, muitos anos mais tarde, quando contava com mais
experiência e conhecimento dos caminhos do Senhor, se referirá com certas
reservas aos sucessos daqueles anos.
Ante as queixas da interessada,
interveio o Provincial Fr. Juan de Villalacre para pôr fim àquelas exibições.
Por ordem do dito provincial ela mesma pediu a Deus que terminassem todas as
exterioridades, tendo Deus a atendido. Isto ocorreu em 1623.
“O modo que
teve de encerrar esta publicidade – diz a Venerável – foi que, armada de fé e
esperança, fui ao Senhor e prostrada ante seu Ser imutável, lhe disse que não me
havia de levantar até que me concedesse retirar todas as exterioridades em
público e que os benefícios que me havia de fazer fossem a sós; e ao prelado,
que era el Padre Fr. Juan de Villalacre, Provincial, lhe supliquei que pusesse
censuras às religiosas para que, estando recolhida, não me manifestassem aos
seculares. O prelado o fez lindamente e o Altíssimo desde aquela hora me mudou o
caminho e me pôs em outro, do qual era mister escrever muito para declarar-lhe.
Dilatou-me muito na capacidade de entender as potências e sentidos para que, com
a grande admiração do muito conhecimento, não perdesse os sentidos, e mais
conhecia neste estado em um instante que em todos os sucessos dos três anos”.
A partir desta data, a vida mística da Venerável, ainda que mais
elevada, será oculta, sem estas repercussões exteriores.
A novidade do
cessar daqueles fenômenos produziu não pequena impressão nas monjas e deu lugar
a vários pareceres. Para muitas, o término de agora fazia suspeito todos os
anteriores. Ela calava. Só sua mãe natural lhe falou algumas vezes, porque a via
constristada por este motivo.
A estes anos das exterioridades, pertencem
também as supostas viagens da Venerável para evangelizar aos índios do Novo
México. Quando muitos anos mais tarde Irmã Maria foi submetida a interrogatório
pelos qualificadores da inquisição, a maioria das perguntas giraram em torno a
essas supostas viagens da monja à América, afirmados em um Memorial que se
difundiu muito e do que é autor Fr. Alonso de Benavides, Custódio do Novo
México, que veio a Espanha em 1630 e esteve em Ágreda. Porém, deste processo,
diremos algo mais adiante.
No mesmo ano de 1623 voltaram a Burgos as
primitivas fundadoras e em seu lugar, se trouxeram de Madri, do convento do
Caballero de Gracia, outras três monjas, também na qualidade de fundadoras.
Estas sim eram das Concepcionistas descalças. Estas segundas fundadoras
governaram o convento por quatro anos. Em 1627 pareceu aos superiores religiosos
que convinha nomear abadessa a Venerável, e assim não o fizeram, pois que não
havia completado os vinte e cinco anos.
Irmã Maria guardou sempre muito
boa recordação das monjas de Cabellero de Gracia por seu trabalho como
educadoras da nova fundação. Se conservam cartas da Venerável às ditas
religiosas. Nelas se revelam facetas altamente simpáticas de sua personalidade:
naturalidade, simplicidade, caráter humano e afetuoso, etc.
ABADESA
Durante onze anos, ou seja, até que se
cumprissem os vinte e cinco anos desde a fundação do convento, foi Irmã Maria
abadessa por nomeação dos superiores religiosos. Depois que se concedeu direito
de eleição à Comunidde, foi eleita triênio após triênio, até sua morte. Só uma
vez conseguiu a interessada, recorrendo ao Núncio Rospillosi, que não se desse a
concessão para reelegê-la novamente, e assim esteve um triênio, de 1652 a 1655,
sem ser abadessa.
O governo da Venerável foi mesclado de prudência,
suavidade e eficácia e demasiada brandura. Esteve trinta e cinco anos à frente
da Comunidade.

Também no temporal se conheceu a eficácia de seu
governo. No primeiro ano de seu cargo decidiu edificar novo convento, fora dos
muros da vila e próximo ao convento dos franciscanos. Começou com tão poucos
meios, que só dispunha de cem reais, que lhe prestou um devoto. A construção
demorou sete anos, resultando em formosa igreja e todas as oficinas necessárias.
A mudança das monjas ao novo convento se verificou em 1633 e celebrou-se com
grande pompa. Quando no interrogatório inquisitorial se insinuou à Venerável que
havia violado o voto de clausura com suas viagens às Índias, esta respondeu com
graça que não havia saído da clausura mais que uma só vez e, esta em procissão,
ao trasladar-se do convento velho ao novo.
Quando Irmã Maria entrou para
governar, não chegavam as rendas a sustentar doze religiosas. Na sua morte,
deixou renda fixa para sustentar a trinta e três.
Em 1652 o convento
concepcionista de Ágreda se converte por sua vez em convento fundador. A
Venerável cede quatro das suas religiosas para uma nova fundação em Borja
(Zaragoza). Existem cartas da venerável à nova Comunidade, que foram publicadas
recentemente.
OS DIRETORES ESPIRITUAIS
Dada a
parte importante que os confessores e diretores espirituais julgaram na vida
espiritual da Venerável, parece obrigatória a detenção neste ponto. Irmã Maria
foi uma alma possuída durante toda sua vida de um “excessivo temor”. Temor de
errar, de extraviar-se. Por isso se submeteu firmemente à obediência, à direção
dos representantes de Deus. “Jamais – dirá ela – me aquietei sem este rumo.” Ao
diretor manifestava toda sua consciência, as graças e favores do Senhor e nada
fazia sem sua aprovação e conselho. No mosteiro de Ágreda se conservam todavia
inéditas as Sabatinas, ou seja, as contas de consciência que cada sábado dava
por escrito ao diretor. Tinha muito impressa na alma a frase do Senhor no
Evangelho: “Quem a vós ouve, a mim ouve; quem a vós obedece, a mim obedece”.
Vale dizer que todos seus diretores e confessores, assim como seus
superiores eclesiásticos, foram da Ordem Franciscana, pois as religiosas estavam
sujeitas à jurisdição dos superiores religiosos da Ordem a que pertenciam ou à
que estavam adscritas; e a Ordem da concepção, desde o início, se pôs sob a
Ordem de são Francisco.
Durante o noviciado teve um confessor que a
todos os seus pedidos de permissão para fazer penitências contestava com um
“não”. Irmã Maria ponderava depois o bem que a fez.
Durante o período
das exterioridades teve vários confessores, cujos nomes conhecemos por suas
respostas ao interrogatório inquisitorial. São eles: o já citado Frei Juan de
Torrecilla, Frei Juan Bautista de Santa María e Frei Tomás Gonzalo.
Com
a intervenção do Provincial Frei Juan de Villalacre para pôr em ordem as coisas
da Venerável, começa um longo período de vinte e quatro anos em que é dirigida
pelo Padre Francisco Andrés de la Torre. Este Padre a dirigiu, pois, desde 1623
até 1647, ano em que morreu. Durante seu mandato, Irmã Maria escreveu pela
primeira vez a Mística Ciudad; na ausência eventual deste, a queimou por
indicação de outro confessor acidental, voltando a refazê-la parcialmente, à
morte dele a voltou a queimar, etc. Samaniego nos informa que o rei Felipe IV
quis nomear Bispo a este Padre, porém, renunciou à idéia por atender melhor a
direção da venerável.
Em cartas de Irmã Maria ao rei há constância de
ordens que lhe dava este Padre com respeito a consultar ao céu sobre certos
assuntos, ou consignar notícias com reflexos sobrenaturais. Também a Mística
Ciudad, como é sabido, há constantes consultas que fazia a Deus ou à Virgem por
ordem do confessor.
Depois da morte deste diretor esteve por algum tempo
só, ou seja, sem diretor. É neste tempo que se queixa ao rei de que a Ordem
Franciscana não guarda segredo de suas coisas como deveria.
Foi também
agora, neste “interregno” de diretor, quando foi submetida ao interrogatório
inquisitorial. Na carta ao rei, alude ao fato e faz referência aos sucessos de
sua juventude sobre os quais versou, principalmente no dito interrogatório:
“Em meu negócio não há novidade maior que a que escrevi a V. M.; quando
me veio aquela visita me achei tão só e sem conselho, que me pareceu forçoso
recorrer ao amparo do Prelado, que é o Padre Manero. O Senhor me enviou este
trabalho quando não há confessor nem religioso nenhum que conheça meu interior,
por terem morrido os que se lhe havia comunicado. Por conta do Altíssimo e da
Rainha do Céu confio minha defesa; se querem que padeça, gozosíssima abraçarei a
cruz. Pelo que a V. M. amo e estimo, lhe quero declarar que, só pela bondade de
Deus, tenho livre a consciência e vontade nas matérias espirituais, ainda que,
não sem temor de ter errado, como mulher ignorante e por ter começado o caminho
da virtude, assinalando-se a misericórdia de Deus comigo, sendo ainda menina”.
Por fim, no mesmo ano de 1650 passa a lhe dirigir o Padre Andrés de
Fuenmayor, que a guiou até a hora da morte. Deste, diz ela estar contente,
porque guarda segredo:
«Meu confessor partiu já para sua jornada; é mui
douto e tem duas vezes o ofício de Provincial, e o que me consola é que guarda
em grande segredo as minhas coisas”.
Sob a direção deste Padre se
encontrava Irmã Maria quando, por ordem sua, escreveu a redação definitiva da
Mística Ciudad. (Cidade Mística). O Padre Fuenmayor viveu muitos anos em sua
direção, escreveu a vida dela e deposições testificais, que existem manuscritas.
CORRESPONDÊNCIA EPISTOLAR COM O REI
Não há
dúvida que um dos episódios mais admiráveis da vida de Irmã Maria é o de suas
relações com o rei Felipe IV, com quem manteve correspondência epistolar por
espaço de mais de vinte anos (1643-1665). Desde então, as relações de Irmã Maria
com o rei da Espanha não são mais que um capítulo dentre os mais importantes; no
conjunto das múltiplas relações e da variadíssima e dilatada troca de cartas,
sustentou a Venerável com múltiplos personagens de seu tempo. Irmã Maria
escreveu cartas a Papas, reis, generais de Ordens religiosas, bispos, nobres e a
toda classe de pessoas da Igreja e da sociedade. Ainda dando por desconto que
muitas destas corresnpondências se tenham perdido, não pode-se deixar de admirar
ao considerar o volume, a extensão, a qualidade e variedade de sua atividade
epistolar e literária. Bem pôde falar Sandoval de “Um mundo em uma cela”. Porém,
voltemos ao tema de sua correspondência com Felipe IV.
Em julho de 1643
Felipe IV se detém em Ágreda, a caminho de Zaragoza. Visita a Irmã Maria e lhe
propõe sua idéia de manter correspondência com ela. O rei lhe escreverá a meia
margem, a fim de que a contestação da monja vá no mesmo papel. E, segundo o
acordado, dentro de poucos dias lhe escrevia o rei já de Zaragoza sua primeira
carta. Assim se iniciou esta célebre correspondência, que não interromperia
senão com a morte da Venerável. A edição de Silvela consta de 614 cartas, das
quais 314 são da monja, e o resto do rei.

Que buscava Felipe IV quando bateu às portas daquele
mosteiro? Ajuda sobrenatural, sem dúvida, pois que os meios humanos e naturais
lhe iam faltando momentaneamente. O panorama da monarquia espanhola era
inquietante: Catalunha sublevada, guerras e reveses com França, Flandres,
Itália, Portugal; falta de meios e recursos para atender a tantos “empenhos”… O
rei acabava de apartar de si ao onipotente conde duque de Olivares, a quem a
opinião popular culpava de todos os desastres. Porém, só e sem o conde, o
apático Felipe IV, que podia fazer? A consciência lhe dizia também que com sua
vida desregrada, tinha a Deus ofendido. Em tamanho aperto pede, pois, socorro a
uma alma santa, confiando que com suas orações, valimento ante Deus, luzes e
conselhos, lhe ajudará a sair daquele labirinto.
Irmã Maria não
defraudou as esperanças que o rei depositara nela. Com fidelidade e perseverança
exemplar foi contestando as cartas reais e desempenhando por este meio um
verdadeiro trabalho de reeducação cristã do monarca; ao mesmo tempo, não deixa
de dar-lhe conselhos atinados em questões de ordem político-militar que o
monarca lhe expõe. Assim, por exemplo, em um momento em que o rei se sentia
tentado a fazer caso omisso dos foros de Aragão, Irmã Maria lhe adverte que não
o faça por nada do mundo. Quando o rei quis fazer extensiva a Aragão a
jurisdição da Inquisição, Irmã Maria lhe aconselhou adiar este assunto, por ser
inoportuno naquele momento; o essencial então era conseguir a cooperação
aragonesa, para o qual havia que afastar os pontos conflitantes. Depois de
reconquistada Barcelona, a monja lhe aconselha que ponha ali ministros que
concordem bem com os reais, etc. Silvela chegou a dizer que a monja de Ágreda,
com sua clarividência e instinto, salvou a unidade da Espanha naquela hora
verdadeiramente crítica e decisiva.
Na ordem internacional, encorajou o
rei a fazer as pazes com a França. E, efetivamente, teve o consolo de ver
logrado este objetivo ao firmar-se a “Paz dos Pirineus”. Irmã Maria tem uma
preocupação constante e geral por aconselhar a paz. Não consegue conceber que,
para possuir-se um lugar, morram tantos homens redimidos por Cristo: “Por
defender coisas terrenas, praças ou reinos (pouco importando o que tenham uns ou
outros) se derrama tanto sangue cristão, morrem milhares e milhares de homens,
gastam os reis suas fazendas, tenham aos pobres súditos oprimidos, cheios de
tributos …”.
A preocupação pelos pobres, ao transmitir ao rei as
queixas, vexações e trabalhos destes, é outra constante que se adverte nas
cartas. Inclusive, chega a dizer que o estado eclesiástico muito pouco sente a
necessidade da paz, porque a ele não lhe alcançam as conseqüências da guerra,
que tanto afligem aos pobres.
Segundo parece, mais de uma vez sentiu-se
Irmã Maria desencorajada e tentada em suspender aquelas cartas, sobretudo vendo
a pouca emenda do rei (coisa que a ela não se lhe ocultava, pois estava a par
das coisas da Corte); porém lhe sustentou um fogo de ardoroso amor, que ela
acreditava infuso, e que lhe impelia a trabalhar por aquela monarquia, cuja
causa vinha identificada com a de Deus e a Sua Igreja.
O rei, por sua
parte, quase constantemente repete em suas cartas o alívio que recebe com a
correspondência de Irmã Maria, o gozo com que toma o trabalho de escrever-lhe, a
dita pelo fato de tê-la conhecido, a pena que sente quando a monja tarda em
contestar, etc. Sem dúvida, o que confortava e comovia ao rei era, sobretudo,
ver a íntima compenetração e o sincero interesse com que aquela alma de Deus se
fatigava pelo seu bem e por causa de sua monarquia. Vejamos algumas passagens:
“Em todas as cartas que me escreveis encontro novos motivos de
agradecimento, pois reconheço com clareza o amor que me tens e os desejos tão
vivos do meu maior bem, tanto espiritual como temporal. Isto me encoraja muito
em meio aos cuidados em que me encontro; é grande alívio saber que se tem alguém
que os desejava abrandar e que o procura certamente no caminho seguro, como o da
oração”.
“Com muita alegria recebi vossa carta, como me sucede com todas
as que me escreveis, e que na verdade não encobrem o amor que me tens, desejando
meus acertos, pois tudo o que me referis nelas o declaras suficientemente. Eu
estimo e agradeço muito, vontando a pedir que continueis esta boa obra que me
fazeis, o qual espero me há de valer muito; e não descuideis de trabalhar nem
desanime em considerá-los tão humilde instrumento, pois Deus quer mais a estes
que aos soberbos”.
Um feito que dilata a finura da alma de Irmã Maria é
o absoluto desinteresse com que serviu ao rei. Queremos dizer que nunca se
aproveitou de suas relações com ele para receber vantagens a seu favor, de seu
convento ou de seus familiares. Ao que parece, o irmão maior da Venerável,
Francisco, quis valer-se da influência de sua irmã para chegar a ser bispo;
inclusive chegou a ter uma audiência com o rei. Irmã Maria, que não lhe pode
fazer desistir de seus intentos, de antemão, avisa ao rei da visita; dize-lhe
que lhe dê boas palavras de despedida, mas sem levar a sério suas pretensões.
O EXAME DA INQUISIÇÃO
Nas páginas anteriores
temos aludido várias vezes ao interrogatório inquisitorial a que foi submetida a
Venerável. A Inquisição espanhola abriu processo pela primeira vez no assunto da
Venerável em 1635. Porém, então parece ter limitado-se a fazer algumas perguntas
a diversas testemunhas e informantes, caindo a causa em suspenso durante muitos
anos.

Porém, em 1649 se retoma o exame. Ao trinitário Padre
Antônio Gonzalo Del Moral se lhe manda ir a Ágreda como qualificador do Santo
Ofício e interrogar a Venerável diante do notário à base de um questionário de
oitenta perguntas, a maioria das quais se referem à suas supostas viagens às
Índias. Irmã Maria, reconhece que naqueles anos das exterioridades, como havia
ouvido falar da evengelização dos índios, acreditava às vezes ser levada para
lá, onde lhes pregava; porém, sempre abrigou dúvidas sobre a realidade de tais
fatos. Por outro lado, Benavides e outros Padres respeitáveis deram o fato por
incontestável e lhe fizeram firmar o famoso Memorial. Lhe amedrontaram
dizendo-lhe “que podia cair na heresia de Pelágio, atribuindo à natureza o que
era sobrenatural”. “Me rendi – disse ela – mais à obediência que à razão”. Nas
respostas da Venerável vemos o juízo que muitos anos depois tinha ela formado
sobre o período das exterioridades. Ao dizer ela aos confessores os os favores
que lhe faziam os anjos, lhe ordenavam por obediência que perguntasse os nomes
dos ditos anjos, e disse alguns, etc.
Pelo que do interrogatório se
deduz, todo este fato das viagens às Índias se originou de uma carta do Padre
Francisco Andrés de la Torre, diretor da Venerável, ao Arcebispo do México, dom
Francisco Mando de Zúñiga, em que lhe dizia que averiguasse se no Novo México
sabiam de uma monja que andava fazendo conversações. Mais tarde veio dali Frei
Alonso de Benavides dizendo que, efetivamente, havia sido vista, fornecendo
detalhes. Este redigiu um Memorando que foi amplamente difundido. Ao perguntar o
qualificador à Irmã Maria porque firmara o Memorando de Benavides, esta
argumentou ela que quando o firmou estava turbada, afirmando o que não sabia, e
pensava que ela estava errava e eles certos: ao ver-se diante de tantos Padres
solenes não supôs fazer outra coisa. Acrescentou que os frades e monjas
dispuseram o caderno como quiseram, e de sua informação temerosa fizeram pouco
caso. Diziam que tinha temores imprudentes e escrupulosos.
Enfim,
acrescentou Irmã Maria, que sobre a questão de ida às Índias mais de uma vez,
pensou fazer uma declaração verdadeira por escrito, vendo quão variavelmente
falavam, e em algumas coisas exageravam a verdade; porém, crendo que o tempo o
esqueceria, tomou o cuidado de queimar os papéis que havia feito.
O
qualificador Fr. Antônio Gonzalo del Moral, trinitário, encerra o expediente
fazendo uma declaração sobre o alto conceito que se formou da interrogada,
desculpando o assunto de ida às Índias pelas circunstâncias em tudo aquilo que
se escreveu.
Cabe perguntar o que moveu a Inquisição a prosseguir agora
em uma causa que, durante muitos anos, havia permanecido praticamente esquecida.
Parece que a ocasião foi a seguinte: o duque de Híjar havia sido processado por
conjuração contra o rei, e durante o processo apresentou, a modo de desencargo,
uma carta da Venerável. Também o Padre Monterón, franciscano, havia sido posto
na prisão porque em seus sermões falava de revelações que anunciavam desgraças
ao rei. De fato, no interrogatório, se perguntou à Venerável sobre suas relações
com o duque de Híjar e o Padre Monterón.
ÚLTIMA ENFERMIDADE E
MORTE
A Venerável sempre teve saúde delicada e padeceu de
diversos achaques e enfermidades. Silvela conta das sangrias que menciona em
suas cartas, e que somam setenta e uma no espaço de quatorze anos. Em carta de
19 de novembro de 1660 fala ao rei de que padeceu de grande enfermidade,
projetou sangue pela boca, etc. Em 16 de junho de 1661, fala de dores de cabeça
que resultam a perda da vista, provocando fadigas mortais, etc.
A última
enfermidade, segundo o biógrafo, foi ocasionada por uma febre e abscesso no
peito. Foram onze dias no total, os que teve de permanecer na cama. Em todos
eles, serviu de edificação geral às religiosas, às que, por insinuação do
confessor, e vendo que choravam amargamente, falou nestes termos no momento de
receber a extrema-unção:
“Irmãs, não façam isso; olhem que não temos
tido outro trabalho e que se devem receber com igualdade de ânimo os que Deus
envia; se Sua Majestade quer que nos apartemos, cumpra-se sua santíssima
vontade. O que eu os rogo é que sirvam ao Senhor, guardando sua santa lei, que
sejam perfeitas na observância de sua regra e fiéis esposas de Sua Majestade, e
procedam como filhas da Virgem Santíssima, pois sabem o que devemos à nossa Mãe
e Prelada. Tenham paz e concórdia entre si e amem-se umas às outras. Guardem seu
segredo, afastando-se de criaturas e retirando-se do mundo: deixem-no antes que
ele as deixe. Desenganem-se das coisas desta vida e trabalhem enquanto tem
tempo; não esperem este último episódio, quando impede o agravamento da
enfermidade e prostração da natureza. Cumpram com suas obrigações, que com isso
terei eu menos purgatório, de tantos anos de prelada. Se prodecerem assim
receberão do Senhor a bênção, que eu lhes dou”. Então, levantando a mão e
formando sobre elas o sinal da Cruz, disse: “A virtude, a virtude, a virtude
lhes encomendo”. Em seguida, foram chegando sucessivamente uma após outra para
pedir-lhe em particular sua bênção, e a cada uma deu a amorosa Madre as
advertências e conselhos que em particular lhes convinha, cuja eficácia e acerto
maravilhoso, no que a si toca, testifica.

Foi assistida nos últimos momentos pelo Provincial
Samaniego e pelo próprio Geral da Ordem, P. Salizanes, que indo de caminho a
Santo Domingo da Calçada para presidir o capítulo que tinham de celebrar as
províncias de Burgos e Cantabria, se desviou a Ágreda e assim pôde estar
presente na morte e exéquias da Venerável. Morreu esta no dia de Pentecostes, 24
de maio de 1665, à hora terça. A suas exéquias concorreu numerosa multidão, pois
era geralmente estimada. A poucos meses, como se a falta de sua fiel e sincera
amiga lhe tivesse abatido, morria também Felipe IV.
O mosteiro da
Concepção de Ágreda, a três séculos destes fatos, manteve viva e operante a
recordação da Venerável. Dentro de seus muros se conservam religiosamente
numerosos objetos relacionados com ela. Dentre eles, os oito livros da Mística
Ciudad, autógrafos e profusão de outros escritos e documentos. O corpo da
Venerável, depositado em uma preciosa urna, e o da sua mãe, Catarina de Arana. A
tribuna aonde se retirava. A cela que habitou, com duas janelas, uma voltada a
Moncayo e outra ao Norte. O hábito franciscano que levava por dentro, além do da
sua Ordem Concepcionista. Casulas bordadas por ela, etc., etc. Efetivamente,
Irmã Maria foi de reconhecida perícia e habilidade para trabalhos manuais e
entendia de panos e telas, como o evidencia na Mística Ciudad ao falar do
vestido que com suas mãos fiou e teceu a Virgem para o Menino Jesus. (MCD, P.
II, n. 686).
Irmã Maria, como tantos outros casos relevantes da
espiritualidade cristã, é a realização mais completa, daquela parábola
evangélica segundo a qual da morte brota a vida; da contemplação, à ação; e a
prova de que a vida escondida em Cristo é a mola mais poderosa do verdadeiro
amor ao próximo.
Sobre a Mística Ciudad de Dios diz sua autora em sua
parte III, cap. 23, n. 791: «Esta divina História, como em toda ela fica
repetido, deixo escrita por obediência de meus prelados e confessores que
governam minha alma, assegurando-me por este meio ser vontade de Deus que a
escrevesse e que obedecesse à sua beatíssima Mãe, que por muitos anos me o tem
mandado; e ainda que toda posta à censura e juízo de meus confessores, sem ter
palavra que não tenham visto e confderido comigo, com tudo isso a sujeito de
novo a seu melhor sentir e sobretudo a emenda e correção da Santa Igreja
católica romana, a cuja censura e ensinamento, como filha sua, protesto estar
sujeita, para crer e ter só aquilo que a mesma santa Igreja nossa Mãe aprovar e
crer e para reprovar o que reprovar, porque nesta obediência quero viver e
morrer. Amém».